destecer
da desobediente fluidez do fio
Em agosto de 2024, quando ainda morava em minha cidade natal, tive a alegria e a honra de passar horas conversando com Thiago Flores e Clara Nogueira numa feliz coincidência de compromissos em Belo Horizonte. Ouvi e aprendi muito com essas duas pessoas indispensáveis para pensar a produção têxtil contemporânea no Brasil, e uma história contada por Thiago, em particular, me deixou bastante impressionada com a versatilidade dos fios. A história era sobre sua vizinha Cleusa, que desfaz peças tecidas em crochê para reutilizar as linhas em outra configuração, mudando as formas têxteis a cada estação do ano.
O relato ficou registrado na dissertação de Thiago, defendida na Escola de Arquitetura da UFMG:
Cleusa me mostrou, em um de nossos primeiros encontros, as toucas de crochê que fez para vender no inverno. Estávamos no fim da estação, ela me disse que, por isso, iria desfazer as toucas para transformar as linhas em outra coisa (Flores, 2024, p. 20).
Numa bela tessitura textual, Thiago nomeia essa capacidade de desfazimento e refazimento contínua da forma tecida de reversibilidade, palavra que alude à volta de algo ao seu estado anterior:
Foi a partir disso que passei a pensar na reversibilidade do têxtil, uma característica que marca os modos de fazer e de pensar com as linhas, definindo outras relações com o gesto, o tempo e o trabalho por parte de quem produz. [...] Reverter é permitir desmanchar, retomar as linhas enquanto matérias primas que possam tornar algo diferente com os mesmos fios (Flores, 2024, p. 20).
As histórias de desfazimento de tecidos para reaproveitamento de linhas fazem parte da identidade de muitas comunidades tradicionais, como é o caso da nação Diné-Navajo, forçadamente retirada do seu território original e aprisionada no campo militar Fort Sumner (Novo México/EUA) de 1864 a 1868.
Em meio a tamanha violência, o rompimento do vínculo com o território de origem mudou completamente a tradição de tessitura praticada pelas mulheres Diné-Navajo, porque as matérias primas tradicionalmente utilizadas — a lã de ovelha e os pigmentos naturais da região — não puderam mais ser cultivadas. Mas as mulheres não deixaram de tecer: a perda brutal de sua liberdade fez com que elas percebessem a importância de manter viva a história (e, consequentemente, o futuro) de sua nação, continuando a prática da tecelagem a partir da apropriação de fios industrializados obtidos através do desfazimento das colchas que os militares enviavam ao campo. Artificiais, as cores vibrantes dos fios marcaram a memória desse acontecimento e implicaram novas experimentações em torno da tradição têxtil Diné-Navajo de modo geral. Depois de um tempo, o novo estilo ficou conhecido como Germantown Revival, que, apesar da modificação de materiais e tonalidades, mantém toda a simbologia e iconografia tradicional da cosmologia Diné, denotando o fato de que as tradições artesanais são transformadas ou atualizadas na medida em que o próprio mundo se transforma — e as identidades culturais não ficam estagnadas no tempo: elas respondem àquilo que as ameaça ou afeta.
Em uma perspectiva oposta, considerando outros recortes de territorialidade, raça e classe, o destecer, que dá título a este texto, aparece como um conceito na tese da artista e professora carioca Mariana Guimarães, representando
práticas de desfazimento de crenças e condutas limitantes que aprisionaram as mulheres junto aos trabalhos com linhas e agulhas. Compreende-se que esses trabalhos foram utilizados pelo sistema patriarcal e colonial para a construção de um corpo dócil e forjado na obediência, na serventia e para a manutenção do espaço doméstico e, ainda, para o fortalecimento do sistema capitalista através do confinamento da mulher ao trabalho produtivo e reprodutivo. O destecer é uma conduta de transformação e reinvenção radical da linguagem e dos espaços de opressão e confinamento (Guimarães, 2021, p. 30, grifo meu).
O conceito proposto por Mariana parte de uma concepção restritiva das práticas têxteis quando associadas a uma ideia distorcida de feminilidade, à qual as mulheres devem corresponder em prol da manutenção das estruturas que as oprimem. Além de romper com essa associação e com os discursos que definem o trabalho artesanal como alienante e sem importância, o destecer demonstra como os fazeres manuais com fios podem ser convertidos numa ferramenta de autonomia, assemelhando-se aos sentidos da reversibilidade que Thiago nos apresentou.
O desfazimento nos autoriza a dissolver uma forma fixada e construída ao mesmo tempo que revela uma nova forma que se apresenta a partir da desconstrução da forma anterior (Guimarães, 2021, p. 118).
Em diálogo com a delicadeza contundente da literatura, Mariana nos lembra, na tese, do desfazimento operado pela moça tecelã do conto de Marina Colasanti, que se liberta da exploração do marido ao desfazer todas as coisas que haviam se manifestado por meio de suas tramas mágicas. E é difícil não pensar também no ardil de Penélope, que tece e destece para enganar o tempo e transgredir o silenciamento ao qual foi submetida pelos homens de Ítaca, transformando o fazer têxtil em decisão e voz.

Penso nas marcas que ficam nos fios dos crochês de Cleusa depois do desfazimento: os traços da forma anterior que modelaram a matéria mole da fibra têxtil provavelmente permanecem neles desenhando volutas — o que não impede, porém, que outra forma radicalmente diferente seja tramada, pois a mesma maleabilidade que sustenta uma memória é capaz de abrir caminho para formas outras, contrárias e dissonantes, como as tecelagens Diné-Navajo que des(a)fiam a colonialidade.
Assim, para arrematar as metáforas de desconstrução-reconstrução presentes na desobediência formal dos fios, preciso falar da resiliência têxtil, que aparece na obra da pesquisadora e curadora estadunidense Julia Bryan-Wilson como expressão das potências materiais inerentes ao ciclo de vida de um tecido, cujas características (como a flexibilidade e a resistência das fibras) permitem que a memória das formas sobreviva à passagem do tempo — reformada, contudo, por novas costuras que acrescentam histórias às suas tramas:
Os tecidos podem sofrer transformações dramáticas ao se moverem através de seus ciclos de vida estendidos: um lençol rasgado poderia ser cortado e transformado num vestido; com o passar do tempo, o vestido, já fora de moda, poderia ser desmanchado para se transformar em panos de limpeza, e quando estes formam fragmentos pequenos demais para ser usados, eles podem ser reunidos para se tornar uma colcha de retalhos, que poderia ser disposta de volta numa cama onde o lençol original certa vez residiu (Bryan-Wilson, 2019, p. 80).
Na dança entre estruturas e funções, revoluções e rupturas, o destecer, expandido pelos significados minuciosos da reversibilidade e da resiliência, recorda e celebra os caminhos contrários, as desobediências e os desarranjos que os fios — nas mãos de mulheres, mas também de todes que enfrentaram normas e imposições injustas — corajosamente tramaram.

Leituras
COLASANTI, Marina. A Moça Tecelã. São Paulo: Global, 2004.
GUIMARÃES, Mariana. O fio como invenção de outros possíveis: a casa, o jardim, a mulher e a obra. Tese (Doutorado) – PPGAV/Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2021.
RJEILLE, Isabella (org.). Melissa Cody: céus tramados. São Paulo: MASP, 2023.
Este texto faz parte de uma série de publicações que trazem formas de pensar as artes têxteis baseadas, em sua maioria, nos estudos de pesquisadoras do Brasil.
Um convite para quem estiver em Belo Horizonte: dia 18 de junho acontece a II Jornada Leonilson, da qual terei a alegria de participar junto da artista Sarah Coeli numa roda de conversa.
E de junho a julho, nas quintas-feiras, estarei ministrando o curso Arte Têxtil: Bordando futuros no MASP Escola. As inscrições estão abertas! Conheça mais sobre este e os demais cursos oferecidos pelo museu clicando aqui.



